A primeira confraria de vinhos do Brasil
fundada em 1980


Noite Feliz

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Por Rodrigo Mammana

A chegada do final do ano transforma paulatinamente nossos humores, como que nos preparando para algum tipo de mudança que sempre acreditamos que ocorrerá no ano vindouro, o que nem sempre acontece. A sensação de algo novo, dever cumprido ou metas para o futuro vem acompanhada da aproximação das festividades que causa na maioria das pessoas algum tipo de ansiedade, seja essa devido aos preparativos de uma viagem, o pagamento de contas, a compra de presentes ou a tão esperada ceia de Natal.

O Natal nem sempre representa a mesma coisa para as pessoas. Ao pensar na data o que me vem à cabeça são os bons momentos que vivi quando criança, família reunida, fartura à mesa e a espera dos tão desejados presentes. Conforme fui amadurecendo e me tornando adulto os presentes foram perdendo sua prioridade e encanto, tornando-se mais um símbolo do amor de seus entes queridos por você; trata-se principalmente do reconhecimento do esforço que eles tiveram em se deslocar em uma cidade caótica como São Paulo e procurar algo que eles imaginaram que iria te agradar. A alegria dos meus filhos, ainda crianças, tornou-se o fator de maior importância nessa data, porém surgiu um novo figurante nesse cenário que ocupou o lugar dos presentes em minha expectativa e ansiedade: Os vinhos do Natal.

Para a grande maioria das pessoas esse é um assunto de importância secundária. Não que elas aceitem qualquer vinho na ceia ( elas sabem que devem comprar rótulos mais caros ou “ especiais” ), mas na verdade a decisão dura no máximo 5 minutos na loja de vinhos perguntando ao vendedor qual seria o rótulo mais adequado para harmonizar com o menu em determinada faixa de preço.

Essa é a atitude normal que se espera de alguém que goste de vinhos e do que ele representa, mas não de um enófilo aficionado como eu. A nossa “ tribo”, que o saudoso Mestre Azeredo chamava de “ E.T. ( Enófilos Tarimbados) “, leva isso muito a sério. Na verdade a maioria das pessoas ficaria impressionada em como levamos isso a sério. Enquanto alguns estão preocupados com a roupa que usarão na grande noite e outros estão pensam na tão esperada viagem, enófillos como eu estão imaginando quais vinhos serão perfeitos para a noite. Não pensem que se trata de escolher os melhores vinhos possíveis, aqueles bem caros com grande fama e prestígio. O raciocínio é bem mais complexo do que imaginam. Primeiramente você abre a adega e dá uma visualizada geral em seus “bebês”. O impulso inicial é olhar aquelas garrafas que você guarda há anos para algum momento especial e se convencer de que esse momento chegou. O Taylor’s 1970, Noval 63, aquele Joly já com 10 anos ou aquele seu Bordeaux 1990 que você sabe que está tinindo, no ponto. Passada a empolgação você respira e se lembra que a maioria dos presentes não faz a mínima idéia do que são esses vinhos e provavelmente depois de uma expressão entusiasmada vão voltar aos seus assuntos e sorver o precioso líquido em uma velocidade digna do Ayrton Senna. Eles não tem culpa alguma, a verdade é que os grandes vinhos precisam ser bebidos inúmeras vezes até começar-se a notar o seu encanto.

É nesse momento que você “ volta à Terra” e começa a usar a razão. Normalmente os amantes da eno- gastronomia valorizam imensamente o bem estar dos convivas e se importam muito com a satisfação e alegria dos mesmos. Quando algum deles expressa sinceramente uma surpresa e grande prazer em algum vinho, o enófilo experimenta internamente uma estranha sensação, mais ou menos como “ eu apresentei o primeiro Vouvray dessa pessoa e ela percebeu como ele é interessante “ .

A maioria das vezes que levei à confraternizações desse tipo vinhos diferentes, elaborados de formas não tão óbvias, com uvas não tão conhecidas e com uma personalidade fora dos padrões internacionais com tudo “ perfeitinho”, percebi que apesar das pessoas elogiarem na verdade elas não gostaram muito. Elas ficam um pouco sem graça, talvez decepcionadas por não terem o tal “ paladar especial” ( que não existe), e ficam um bom tempo com o copo na mão tentando esconder o pensamento: “ bem que eu preferia um Prosecco”.

O vinho é um produto como qualquer outro, e sua apreciação vai se desenvolvendo com o tempo de acordo com interesse da pessoa por esse assunto. Se eu estiver com um grupo de colecionadores de relógios, provavelmente sentirei maior atração por algum modelo que não necessariamente é o mais sofisticado ou especial. Quem conhece a história desses relógios sabe detalhes sobre o mecanismo, material usado, precisão da mecânica, etc, e por isso dá um valor maior a eles e até mesmo gasta um bom dinheiro para adquiri-los e apreciá-los. Para a maioria trata-se apenas de relógios, alguns com marcas famosas, outros com extrema beleza, mas na verdade os critérios de avaliação são limitados para os não-entusiastas.

Após muitos anos desperdiçando grandes vinhos com pessoas que não os apreciaram de forma adequada fui notando que quem estava errado na verdade era eu mesmo.

Se eu sou um apaixonado apreciador de vinhos, minha obrigação em um ambiente com pessoas que gosto muito mas não são aficionadas como eu é exatamente escolher os rótulos com maior probabilidade de proporcionar grande prazer a todos.

Hoje em dia esse assunto está bem mais claro e por isso resolvi compartilhar alguns conceitos que acabei adquirindo ao longo desses anos para agradar o máximo possível meus queridos amigos e familiares que adoram beber um vinho à mesa sem estarem preocupados com sua origem, história ou técnicas de sua elaboração. A seguir vão algumas sugestões pessoais sobre vinhos que dificilmente farão feio em suas festas de fim de ano:

  • Espumantes:

O brasileiro gosta muito de Prosecco. Não há nada de errado nisso, pois são vinhos leves, de preço baixo ( apesar de vários Proseccos vendidos aqui serem de péssima qualidade e vendidos a preços altíssimos). Se você faz questão de consumir Prosecco, prove alguns antes de decidir qual comprar em quantidade, pois existem diversos níveis de residual de açúcar, acidez e álcool. Apesar do preconceito habitual do brasileiro, 90 % das vezes o espumante nacional será de melhor qualidade que os Proseccos disponíveis. Meu conselho é: Se quiser servir vinhos leves e frescos em abundância sem ficar preocupado com aquele convidado que bebe várias garrafas e acaba deixando seu orçamento comprometido, invista em bons espumantes nacionais ( Salton, Valduga, Miolo, Adolfo Lona, Cave Geisse, etc. ) e se quiser algo especial compre um Champagne apenas para brindar ( o que mais encanta os enófilos experientes no Champagne é sua complexidade, corpo, acidez e principalmente as notas de autólise adquiridas após um longo período do vinho em contato com as leveduras mortas. Essas características nem sempre agradam os bebedores menos experientes que costumam preferir frescor e presença de fruta, daí a vantagem dos espumantes nacionais) . Mais um detalhe: os espumantes secos ( Brut ) não combinam com os doces da sobremesa. Comprem algumas garrafas de espumantes demi-sec para o panetone ou fechem a noite com chave de ouro com um belo Moscato D’Asti, uma verdadeira jóia do Piemonte.

Você pode servir o espumante desde o início até o fim. Vai bem com os aperitivos, entradas, e mesmo que não harmonize com pratos densos e complexos servem para limpar e refrescar o paladar. Certamente haverá convidados que optarão pelo espumante a noite toda ( normalmente os “ cervejeiros” fazem isso).

 

  • Jerez:

Apesar do brasileiro não ter o costume em consumir essa categoria de vinhos, me sinto na obrigação de falar sobre eles. Os Xerez são os vinhos mais versáteis que existem sendo as únicas opções de harmonização para ingredientes ditos “ inarmonizáveis”. Alcachofras, ovos, saladas com vinagre, aspargos, sopas exóticas? Coloquem um fino ou amontillado na mesa e está tudo resolvido. Metade achará estranho, já a outra metade descobrirá um amor para toda vida. Os Jerez são dos vinhos mais subvalorizados do mundo e você poderá encontrar exemplares de altíssima qualidade a preços totalmente acessíveis. Além do leve e delicioso Tio Pepe, você deve experimentar o Maestro Sierra, Manzanilla La Gita ou Hidalgo. Importante ressaltar que os vinhos Jerez são companhias perfeitas para as frutas secas tradicionais de natal.

 

  • Vinhos Brancos:

O brasileiro até hoje não superou o preconceito adquirido pela inundação de vinhos brancos de má qualidade que sofreu na década de 1980. Os Liebfraumilch de garrafa azul criaram a noção de que vinhos brancos são para os novatos sem cultura, visão essa completamente equivocada. Vinhos brancos são excelentes e apropriados para nosso clima e culinária condimentada. Nosso natal tropical é sempre quente e a tradição gastronômica combina muito com os vinhos bancos. Culinária baiana, moquecas, bobó de camarão, etc, pedem vinhos brancos com elevada acidez para equilibrar a untuosidade do prato.

Existem grandes vinhos brancos, caros e complexos que arrancam suspiros dos enófilos mas talvez não serão apreciados como se deve ( estou me referindo principalmente aos brancos da Borgonha). Existem apostas certeiras que arrancarão suspiros de todos e também agradará os enófilos mais exigentes: Sauvignon Blanc da Nova Zelândia, Alvarinho do Minho, Chenin Blanc da Africa do Sul, Muscadet de Seivre Maine, Vermentino da Saredgna, Grüner Veltliner da Áustria, e meu favorito: Riesling do Mosel. Lembrem-se disso: Riesling alemão é vinho de gente grande. Impossível qualquer convidado não se deliciar com um bom Riesling da Alemanha ou Alsácia.

 

  • Vinhos Tintos:

Velho conhecido do brasileiro, muitos bebem apenas esse estilo. Apesar dos vinhos bem feitos do Chile e Argentina serem bastante apreciados por aqui ( além de normalmente apresentarem uma boa relação custo-benefício), sugiro não se esqueçam que o mundo do vinho é muito vasto e é exatamente a diversidade que o torna um produto tão interessante.

Experimentem vinhos de perfil moderno do Alentejo, os tradicionais Rioja ( garanto que um bom Rioja Crianza será sucesso garantido ), um Barbera D’Alba do Piemonte. Se apreciarem vinhos frutados com baixo teor de taninos devem procurar os Pinot Noir da Nova Zelândia ou até mesmo da sagrada Borgonha. Gostam de vinhos encorpados, alcoólicos e com uma sensação de doçura? Vá de Primitivo de Mandúria, Pinotage da África do Sul, Zinfandel dos EUA. Se gosta dos clássicos não se esqueça dos Bordeaux, Barolo, Hermitage, Amarone ( esses deixam os bolsos mais “ doloridos”). As opções são inúmeras e a curtição é exatamente provar o novo, ter novas experiências, afinal o objetivo é o prazer .

 

  • Vinhos Doces:

Essa categoria costuma ser incompreendida, muitas vezes considerada de “ nível inferior”. Minha opinião é que isso se deve ao fato de nossos vinhos de garrafão feitos com uvas não-viníferas serem adocicados, o que leva os novatos a acharem que qualquer vinho doce é de má qualidade. Basicamente a coisa funciona assim: Vinhos doces de alta qualidade possuem alta acidez.Se você tem um vinho doce com acidez baixa ele fica enjoativo e desequilibrado. Não adianta somente você querer produzir um vinho doce com alta acidez, são necessárias as uvas corretas, condições climáticas favoráveis, etc.

Como é uma noite especial, comprar uma garrafa de Sauternes, Tokaji, Passito di Pantelleria, Muscat Beaumes de Venice, Ice Wine canadense, vinhos doces alemães ( Auslese para cima), etc, certamente tornará sua noite memorável. São vinhos que acompanharão a sobremesa doce, entretanto também pode ser a própria sobremesa. Reparem na persistência, delicadeza, sensação agradável que deixa no final de boca. Se a ideia for um panetone experimente um Moscato D’Asti e não se arrependerá.

Para finalizar a noite com chave de ouro minha recomendação é um Porto Vintage ( ou LBV caso não queira gastar mais de R$ 300,00 em uma garrafa) ou um Madeira de qualidade ( sim, existem vinhos da Madeira magníficos, bem diferentes daqueles que você usa na cozinha). Procure um da uva Boal, Malmsey ou a rara Terrantez. Henriques & Henriques e Blandy’s são boas pedidas.

 

Seja qual for sua preferência, o mais importante é não esquecer a razão

dos vinhos estarem lá. Eles nada mais são que instrumentos para agregar, relaxar, descontrair, tornando a noite ainda mais feliz. O vinho proporciona a potencialização do prazer das sensações gastronômicas, traz alegria e auxilia na reflexão sobre o ano que passou, suas conquistas, lutas e desafios. Ao final da noite, quando todos estiverem dormindo, pegue um cálice de seu Porto Fonseca Tawny 40 anos, sente-se na varanda e reflita sobre o sucesso em ter conseguido por mais um ano cultivar a unidade familiar e reforçado o imenso valor da confraternização em torno da boa mesa com as pessoas que ama.

 

Espere um pouco: Que vinhos servirei na noite de ano novo? Enófilos não têm jeito mesmo…..

 

 

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